Era realmente uma sexta-feira 13 e eu havia combinado com uns amigos de encontrá-los em uma festa black pra balançar o esqueleto. Era o quinto ano da facul e eu já tinha até carro (“eu tinha” é modo de dizer, já que o pobre do carango, na verdade, era uma vítima indefesa do rodízio entre mim e meus irmãos), mas o “possante”, apesar de não ser exatamente uma lata velha, também estava longe de ser um Batmóvel... o ponteirinho que marca o nível de gasosa estava quebrado e, como o carro passava de mão e mão igual mulher de vida fácil, era impossível saber a quantas andava o combustível.Voltando para a tal noite da festa... coloquei minha “RCG” (roupa de comer gente), maquiagem, saltão (para tudo isso existe mastercard), e fui buscar uma amiga que morava duas ruas abaixo da minha, pensando em parar no posto de gasolina para abastecer no meio do caminho. Era por volta de 22h e uns quebradinhos. Havia um posto quase na esquina... estávamos chegando... chegando... e o carro começou a parar... e a pular feito jeguinho... e foi parando... e parou, a uns 100 metros do posto, filho da #$%@!!! Prego de gasolina, e não tinha uma viva alma pela rua... eu e a menina nos olhávamos com cara de “woo-hoo-hoo-a-gente-se-fu” (e agora, Batman???), possuídas de um acesso de riso nervoso... e o tempo passando, e nenhuma de nós com coragem de sair do carro e cruzar aqueles 100 metros pra comprar o combustível, isso nem pelos poderes de Grayskull (nem mesmo com o mega-fodástico cinto de utilidades do Batman eu me arriscaria...)
E foi nessa hora que o tal cara apareceu. No meio daquele monte de gargalhadas histéricas e despropositadas, ouvimos um “toc-toc-toc” no vidro da janela do lado do motorista (e eu juro que se fosse cardíaca tinha enfartado ali mesmo)... mó esquisito... alto pra dedéu, todo de preto... uns cordões de caveira, anelões... umas olheiras... e um sorriso estroboscópico-maquiavélico-psicodélico, típico de devoradores-de-fígados-de-garotinhas-em-prego-de-gasolina... moleque... ali eu gelei (se eu fosse a Dona Anne, diria que perdi literalmente todas as pregas)... e devo ter feito uma cara muito “dããããã”, porque o “exótico” me olhou, compadecido, e fez sinal para que eu abaixasse o vidro. Pensei “se não abrir ele vai quebrar o carro e a negada lá de casa vai me ressuscitar só pra ter o prazer de me matar de novo”... era melhor morrer com dignidade e sem grandes prejuízos, se fosse pra morrer que morresse como uma lady... Abri a droga da porta de uma vez, fiz uma cara blasé e soltei, com a voz menos tremelicante possível: “siiiim?”
Ele perguntou qual era o problema. “Gasolina”, respondi. Ele soltou de novo aquele sorriso e a pérola “hummm... que perigo duas moças sem gasolina no meio da noite...”, e eu juro que vi nitidamente naqueles olhinhos esquisitos as tais “duas moças” transformadas em churrasquinho de gato, “balançando o esqueleto” da forma mais desagradável possível... o cara então se ofereceu para ir ao posto comprar o combustível e colocar no “possante”. Ok, ótimo, “magavilha”, até aí tudo bem. Só que enquanto colocava a gasolina no tanque – e ele fazia isso beeeeeeem lentamente – ele esmiuçava inúmeros casos escabrosos de desaparecimentos, e assassinatos e outros acontecimentos “mimosos” que aconteciam em noites como aquela...
Terminado o “silviço”, o “exótico” olhou pra nós e disse (não, Mila, ele não disse "escute-me", hehehe): “prontinho, mas cuidado com esse pessoal por aí. A gente nunca sabe quando está diante de um psicopata”... agradeci a ele pela ajuda (e a todos os santos, por terem evitado que ele tivesse a brilhante idéia de pedir uma carona), liguei o carango, pisei no acelerador e disparei como se o motor tivesse sido envenenado com gasolina azul. E só nessa hora tive a curiosidade de perguntar as horas para a tal amiga (se tivesse perguntado antes não teria adiantado nada, tal o estado de nervos em que a pobre tinha se enfiado, quase uma catatonia). Fiquei neon quando ela respondeu que eram exatamente doze minutos do dia 14... o que queria dizer que, quando deixamos o “exótico” para trás, a tal sexta-feira 13 também virava coisa do passado...
Que fique bem claro: não sou supersticiosa. Sou capaz de passear em zigue-zague debaixo de uma escada, abraçar um gato preto e sal grosso, só como tempero de churrasco e olhe lá. Talvez por isso a sorte – ou a Lei de Murphy – tenha me escolhido a dedo para passar por essa situação estranhíssima... pelo sim, pelo não, nunca mais deixei de abastecer o carro, nem mesmo depois que aquele famigerado ponteirinho voltou a funcionar... vai que eu dou de cara com o “exótico” outra vez... eu, hein... tá doido...
